30/9/08
Cerrado, a natureza de BrasÃlia
Por Ana Miranda¹
Menina pequena, eu andava no cerrado olhando as folhas e flores, catava sementes, espinhos, gravetos para guardar numa caixa e depois colar em folhas de papel, tateava as cortiças que recobriam troncos de árvores tortas, sentia no dedo as gosmas de algumas flores ou o pó de mariposas mortas, provava frutinhas azedas, ácidas, duras, ou doces, colhia mamonas para treinar a mira, cavava raízes das andiras a ver onde terminavam e não terminavam jamais, cortava canudos de mamoeiros bravos para fazer bolhas de sabão, fugia das cobras, seguia rodamoinhos, procurava guarás e sonhava com eles…
Meu brinquedo favorito era o cerrado. Adolescente eu caminhava pelas trilhas vermelhas feito uma ema, uma loba esguia, mais senhora e mais distante, divagava longas horas a admirar aquelas matas singulares que nunca perderam a estranheza para mim. Tenho poucas fotos desse tempo, algumas foram tiradas no cerrado, eu com o pé em um tronco, eu numa caverna vegetal, sempre com um ar idílico de quem caminha devagar e com cuidado.
Gosto mais de Brasília quando não chove e o vermelho, o incêndio, a eletricidade que paira no ar, os campos secos, lembram minha infância. Ainda hoje olho o cerrado e me sinto a mesma criança perambulando entre chuveirinhos, quaresmeiras, ouvindo pássaros a voar nos murunduns, como dizia meu pai… Uma criança que ingenuamente percebia a grandeza de uma manifestação como o cerrado. O cerrado é uma referência para minha geografia pessoal. Amo o cerrado por fora, suas paisagens lisas e intermináveis, e também o amo por dentro, nas suas minúcias infinitas.
Mas estamos acabando com o cerrado, numa rapidez muito maior do que a rapidez com que estamos acabando com a floresta amazônica. A devastação que ocorre no cerrado é num ritmo três vezes maior: 70% do cerrado já foram destruídos e, do resto, parece que apenas um pedacinho vai sobrar, como uma espécie de museu da savana mais rica do mundo, onde viverão espécimes solitários e saudosos. Não há nenhuma norma que possa assegurar a preservação dos recursos naturais pertencentes ao cerrado. A utilização dessas riquezas e dessas chapadas tem como únicos limites a fronteira agrícola e a linha dos incêndios.
O nosso patrimônio nacional, por lei, é formado pela Amazônia, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-grossense e a Zona Costeira. Estão de fora a Caatinga e o Cerrado. Como é possível termos esquecido a natureza que cercava a cidade onde se escrevia a constituição? E a natureza da terra natal de tantos constituintes… Via-se até recentemente o cerrado como um mato seco, ruim, inóspito, pobre, desértico, mas hoje conhecemos a riqueza desse mundo.
O cerrado, segunda maior formação vegetal do Brasil, faz uma importante ligação entre a Mata Atlântica, o Pantanal, a Caatinga e a Amazônia, para que as águas, os ventos, tudo se harmonize. Uma parte expressiva da diversidade de vida de nosso país está no cerrado: vivem ali alguns bichos já mitológicos, como onças-pintadas, lobos-guará, tatus-canastra, águias cinzentas… Metade dos pássaros do Brasil está no cerrado. No cerrado, nascem os rios São Francisco, Jaguaribe, Parnaíba, Tocantins, Araguaia, Xingu, Madeira, os formadores do Paraguai que rega o Pantanal, o Paranaíba, o Rio Grande e o Rio Doce, fora os rios pequenos com suas divinas cachoeiras. Quase todos os brasileiros dependem de energia gerada por águas que nascem nessa “caixa d’água” do Brasil.
No cerrado vivem, também, povos e comunidades tradicionais muito diversos e preciosos, como indígenas, sertanejos, ribeirinhos, ou quilombolas, uma gente que conhece profundamente o seu mundo e sabe como mantê-lo vivo. O Movimento Cerrado Vivo está tentando uma emenda constitucional, para reparar o erro. Poderiam incluir, também, as belas caatingas de nossos sertões?
¹Ana Miranda é escritora e escreve contos para antologias, artigos para jornais ou revistas, pré-roteiros para cinema. Desde agosto de 2004 escreve crônicas no Correio Braziliense.
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Fonte: Correio Braziliense
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